Transformando o luto em arte, Olavo Gomes estreia "Mainhas", uma carta de amor de um filho às mulheres que o formaram
Um homem decide escrever uma carta que jamais poderá ser entregue. Na tentativa de concluir uma conversa interrompida, ele inicia uma travessia pelas lembranças que moldaram sua identidade. Entre terreiros e carnavais, da Bahia ao Rio de Janeiro, um filho em luto encontra colo na voz de Maria Bethânia, Mariene de Castro, e tantas outras artistas que traduzem a saudade. Assim nasce Mainhas, primeiro solo autoral do ator baiano Olavo Gomes, que estreia em setembro na Sede da Cia dos Atores.
Misturando teatro, performance, humor e relatos autobiográficos, Mainhas é uma carta de amor às mães, às cidades e à arte como território de cura. Sem oferecer respostas para o luto, o espetáculo celebra aquilo que resiste ao tempo: os gestos herdados, as histórias que insistem em ser contadas e as canções que atravessam gerações. “É uma peça que pede uma pausa para reverenciar as mulheres que nos formam. Eu quis exaltar a força da figura feminina na minha vida. Foram as mulheres que me moldaram, me salvaram, me socorreram, me apresentaram a arte, a vida, o teatro. São mães físicas e mães simbólicas”, revela Olavo.
A direção é assinada por João Gofman, que trouxe para o espetáculo uma abordagem contemporânea. “A direção do João tem sido muito assertiva. Desde o início ele tirou o tom melancólico da peça e transformou num teatro de performance, onde o ator vivencia as histórias que conta”, comenta. O resultado é um trabalho que parte de uma experiência pessoal, mas alcança uma dimensão coletiva.
A ideia de transformar a própria história em cena surgiu em 2025, durante uma residência artística na Sede da Cia dos Atores, quando Olavo investigava a obra de Grace Passô. “Percebi que na obra dela a presença da morte era muito forte”, comenta. Conduzindo o processo, o diretor da Cia dos Atores, Marcelo Olinto, propôs que os residentes preparassem uma cena livre. Sem saber o que apresentar, Olavo ligou a televisão e se deparou com a sequência final de Central do Brasil, em que Dora escreve uma carta para Josué. “A inspiração veio na hora: por que não escrever uma carta pra mainha contando tudo que aconteceu depois da sua partida?”, lembra. A cena foi apresentada à turma e Olinto sugeriu que o material fosse ampliado. Mais tarde, Olavo levou o texto a João Gofman, dando início à montagem de Mainhas.
O espetáculo marca também uma mudança na trajetória de Olavo Gomes. Formado pela CAL - Casa das Artes de Laranjeiras, o ator trilhou uma carreira voltada à investigação da cena contemporânea, atravessando dramaturgias clássicas, processos colaborativos e pesquisas de linguagem no teatro. Esta é a primeira vez que ele leva à cena uma história autobiográfica e assume a autoria de um trabalho: “Mainhas é um passo de afirmação como artista autoral, trazendo para a cena uma história que só poderia ser contada por mim”, conclui.
Classificação: 14 anos
Duração: 55 minutos
SERVIÇO
Espetáculo “Mainhas”
Local: Sede Cia dos Atores – Na Escadaria Selarón - R. Manuel Carneiro, 12 - Santa Teresa, Rio de Janeiro - RJ, 20241-120
Temporada: 11, 12 e 13 de setembro
Dias e Horários: Sexta e sábado às 20h, domingo às 19h.
Ingressos: R$60 inteira; R$30 meia-entrada.
Venda: linktr.ee/mainhasespetaculo


